Raimundo Penaforte

 

Realizada e editada por João Kouyoumdjian

 

A terceira entrevista da série Movimento Violão traz Raimundo Penaforte, compositor brasileiro radicado em Nova York e reconhecido mundialmente pela excelência de sua obra e brasilidade sem clichê. Leia abaixo entrevista exclusiva concedida ao Movimento Violão na qual o compositor discorre sobre suas obras, intérpretes, estilo e origens. Penaforte ainda fala sobre projetos futuros e como poderão ouví-lo no Movimento Violão. Confira!

 

1) Você é reconhecido mundialmente como compositor, arranjador e instrumentista brasileiro. Mas qual seu vínculo com o violão? Você tem obras originais ou arranjos para ou com o instrumento? O que o atrai mais quando pensa no violão? 

 

O violão sempre esteve presente em minha vida, graças ao meu irmão Júnior Penaforte que, na adolescência, comprou um, o qual meus pais o fizeram devolver à loja, antes de mudarem de idéia e aceitá-lo em nossa casa. Por ter nascido em um lar religioso e meu pai ser pastor, isso resultou em tocar o violão nas igrejas que ele pastoreou; no Maranhão, no Amazonas e no Ceará. Assim, aprendí a tocar não só o violão como também contrabaixo elétrico, bateria, guitarra elétrica, teclados e a compor hinos para diferentes grupos vocais que se apresentavam nos cultos dominicais. Apesar da ligação que tenho com o violão, é interessante notar que é um dos instrumentos para o qual eu tenho composto menos. Dentre as obras originais, encontram-se: “Two pieces for guitar”, encomendadas por você, João [Kouyoumdjian]; “Labirinto”, encomendada como presente para um aniversariante, na Espanha, e impecavelmente executada em gravação, pelo João Luiz; “Quartetice”, encomenda para o Los Angeles Guitar Quartet, e a mais recente encomenda: “Three pieces for flute, viola and guitar”, encomendadas pelo Alturas Duo. Tenho também várias transcrições e arranjos camerísticos que incluem o violão com trompete, com violino, com percussão, com flauta e viola, com arroz e feijão, com suco de abacaxi e com Leite Moça, dentre outros. O que mais me atrai quando penso no violão é o fato de eu ter, nas mãos, uma orquestra de seis cordas. Nos dias inspirados, quando começo a tocá-lo, esqueço o tempo, as contas, a vida e a hora. É um perigo!

 

2) Como foi trabalhar como Los Angeles Guitar Quartet? Como eles interpretaram sua peca? Você precisou interferir com sua musicalidade brasileira para trazer à tona o caráter da obra? 

 

O LAGQ é um grupo super-da-pesadíssima. Não só são excelentes músicos como também excelentes pessoas. Antes de gravarem meus “Prelúdio” e “Gangorra” (de “Quartetice”) para o selo Telarc, eles tocaram a peça várias vezes, em diferentes ocasiões. Nas duas primeiras, em Tucson, no Arizona – estréia mundial – e em Nova York, no YMCA eu toquei percussão com eles. Não escreví a peça tendo a percussão em mente, porém, na época fez sentido adicioná-la às performances. Na gravação oficial, por questões orçamentais e geográficas, eles usaram um percussionista da California. Quando tocamos juntos, não precisei interferir na musicalidade. O grupo tinha conhecimento dos rítmos brasileiros e isso agilizou bastante o processo. Houve, obviamente, a troca de idéias musicais em relação a execução da peça como um todo. Isso está contido no processo.

 

3) Você se projetou muito no exterior devido aos seus arranjos, dentre eles um trabalho para Mark Gould, primeiro trompetista da Metropolitan Opera Orchestra de Nova York. Como compositor de primeira grandeza, te incomoda o fato de alguns pensarem em você antes como arranjador do que compositor? Como uma coisa pode nutrir a outra (se isso de fato acontece)? 

 

Sim, me incomoda, de certa forma. Por outro lado, não posso reclamar pois meus arranjos foram quase todos gravados, comercialmente falando. Isso gera uma certa contradição. Como posso não querer ser chamado de arranjador tendo uma lista de CDs que provam o contrário? Bom, isso é um outro forrobodó. Meus primeiros arranjos foram três canções de “West Side Story” para violino e piano. Como geralmente acontece, fui contactado de última hora pela violinista desse projeto. Sua idéia era de tocar os arranjos no “Pacific Festival”, no Japão. Quando entreguei-lhe as peças, ela gostou tanto que resolveu adicioná-las no seu primeiro CD para o selo Denon Records. Com o lançamento do CD, os arranjos começaram a circular pelas rádios chegando a tocarem até nos auto-falantes da Grand Central Station, em Nova York. Eventualmente, foram tocados na Casa Branca, para o então presidente, Bill Clinton e a primeira dama, Hillary Clinton. Isso abriu portas para outros projetos que inclui o CD “Café 1930”, do trompetista Mark Gould, o CD “Carambola”, do trompetista Fernando Dissenha, os arranjos dos prelúdios de Gershwin, três canções de “West Side Story”, de Bernstein, e os arranjos das “Bachianas No. 5”, de Villa-Lobos, para três CDs do Eroica Trio. Confesso, nunca tive intenção em me tornar arranjador. Escrevi meus primeiros arranjos enquanto trabalhando na biblioteca da Juilliard School, em Nova York. Eu acabara de me formar e continuava trabalhando pois, naquele ano, a biblioteca ficara aberta após a formatura por mais um mês, antes de fechar para o verão. Como ninguém quase a visitava e a maioria dos alunos já haviam saido dos dormitórios, eu tinha tudo que precisava para trabalhar: tempo, silêncio, discos e livros. Assim, os arranjos foram feitos, literalmente, na biblioteca da Juilliard. Sobre a interação arranjo/composição, eu penso em arranjo como recomposição. A destruição do velho para a construção do novo, enquanto mantendo os alicerces musicais da peça a ser arranjada. Um processo quase que arqueológico – destruir para construir (a história). Bach era campeão nesse departamento. Reciclava material próprio e de antepassados no intuito de construir novos formatos. Como o arranjo nutri a composição e vice-versa, eu acho que isso varia de músico para músico. As vezes, você muda tanto uma peça que ela perde o elo com o original, tornando-se orfã de compositor. Em geral, isso acontece quando a voz interna de compositor fala mais alto do que a de arranjador (e vice- versa). 

 

4) Você comparou seu processo de arranjo com um processo arqueológico. É a arqueologia uma área a qual você tem curiosidade em conhecer? 

 

Quando estudei na Hardin-Simmons University em Abilene, no Texas, o curso de Bíblia era pré-requesito para graduação. Na época, eu ainda carregava comigo a velha rebeldia existente na maioria dos filhos de pastores (ex., o roqueiro Alice Cooper é filho de pastor, assim como Vicent Van Gogh, Malcom X, Friedrich Nietzsche, etc). Tentei evitar o curso mas como ví que não tinha jeito, assumi a empreitada. Certo dia, lendo o jornal da universidade, me deparei com um anúncio sobre um projeto arqueológico, em Israel. Eu poderia usá- lo apenas como matéria eletiva, dizia o anúncio. Isso me interessou bastante. Ao conversar com o professor responsável pelo projeto, Dr. George Knight, ele me garantiu usar os créditos para o curso de Bíblia e falou que ministraria o curso para mim através de aulas particulares durante as semanas de excavação em Tiberíades, Cafarnaum. Além disso, captando o meu enorme interesse em participar do projeto, ele ainda me conseguiu uma bolsa de estudos. Portanto, naquele verão, eu fui para Israel e cursei a primeira parte do curso de Bíblia: Velho Testamento. Uma experiência inesquecível. No ano seguinte, voltei à escavação e cursei a segunda parte do curso, Novo Testamento, enquanto trabalhando como voluntário. Infelizmente, no ano vindouro, dado o terrorismo engenhado por Moamar Ghaddafi, a universidade cancelou a viagem arqueológica e eu passei aquele verão trabalhando como pintor (de paredes), na universidade. Não sabia Ghaddafi que seus dias estavam contados e que eu era um excelente pintor, não só de paredes como também de rodapés e de portas. No ano seguinte, voltamos para Israel para finalizar o projeto de excavação que, ao todo, durara 10 anos. Nessa última viagem, eu achei um vaso azul de vidro com mais de mil anos de idade. Passei dois dias para removê-lo do solo. Além das experiências arqueológicas, houveram também as musicais. Em uma das minhas visitas a Israel, conheci o Naná Vasconcelos e o Gismonti, em Jerusalém, que estavam em turnê com o show, “Duas Vozes”. Nesse período, visitei o Cairo e vários países europeus. Eu era feliz... e sabia.

 

5) A imagem do Brasil ainda é muito representada pelo tri-pé cultural "futebol- samba-carnaval" que gera um cartão postal distorcido em relação ao que um artista brasileiro pode ser. Você foi de alguma maneira vítima desse esteriótipo? Como é se afirmar como compositor erudito brasileiro no exterior? Como você traz à tona a brasilidade de sua música sem apelar para "confete e serpentina"? 

 

A palavra “vítima” talvez seja um tanto forte mas nesse contexto, concordo com você. Não tem escapatória. Em geral, o público estrangeiro espera que role no mínimo um batuquezinho, nas peças brasileiras, não importando a natureza das mesmas. Confesso, me sinto um tanto culpado por isso pois estou sempre pensando em rítmos. Por outro lado, às vezes penso em coisas “imbatucáveis”, cerebrais e acadêmicas até o talo – dependo do dia. Nunca gostei desse tri-pé que você mencionou. O esteriótipo existe, sim e cabe a cada artista definir a sua meta. “Uma meta existe para ser um alvo, mas quando o poeta diz: meta, pode estar querendo dizer o inatingível.” O fato de eu ter cabelos longos e a pele morena, não significa que eu seja músico de banda Axé ou jogador da seleção brasileira. Nada de errado em fazer parte de uma banda Axé. Por outro lado, a seleção brasileira... Como diz o ditado: “As aparências enganam.” A fama da música brasileira através do samba, da bossa nova e, de um tempo pra cá, do Brazilian jazz e do chorinho alimenta essa errônea visão holywoodiana de que, no Brasil, tudo circula em torno de futebol-samba-carnaval, incluíndo a música erudita. Existe uma expectativa de que as músicas dos compositores eruditos brasileiros, independente dos seus variados estilos, retratem, de certa forma o Brasil, os índios, a 

flôra, a fauna, o carnaval, a feijoada e o “Alcibíades”. Não se apercebem que nem tudo, no Brasil, é só samba-futebol-carnaval ou arara-selva-favela. O Brasil é um país enorme com musicalidade ainda maior. Esperar que tudo dê em samba demonstra a má-informação cultural no auge da globalização via Internet. Por outro lado, em geral a ignorância se veste tão bem que chega a liderar modismos. Como eu trago à tona a minha brasilidade? Respondo com uma frase do Phillip Glass: “Acordando cedo e trabalhando o dia inteiro, todos os dias.”

 

6) Suas obras já foram interpretadas mundo afora em algumas das mais prestigiadas salas de concerto do mundo como o Concertgebow (Amesterdam), Carnegie Hall (Nova York) e The White House (Washington DC). Apesar do reconhecimento ser maior no exterior do que no seu próprio país, você terá uma obra sua executada pela Orquestra Sinfônica Brasileira este ano. Você considera isso um indício de que o cenário cultural brasileiro está mudando no sentido de oferecer uma melhor plataforma de trabalho a músicos brasileiros que encontraram melhores oportunidades de trabalho no exterior (como aparentemente foi seu caso)? Acha que essa mudança está diretamente relacionada com o crescimento econômico do Brasil? 

 

Não acho que essa estréia esteja relacionada com o crescimento econômico brasileiro, nem considero isso um indício de que o cenário cultural brasileiro tenha mudado, no que diz respeito a uma melhor plataforma de trabalho para músicos brasileiros morando no exterior. Dito isso, reconheço o desenvolvimento econômico e cultural do país sim nos últimos 10 anos. Por outro lado, eu estou nessa profissão há anos. Chega um ponto na vida que, dependendo do esforço e da dedicação contínua, o seu nome começa a circular em meios que outrora não circularia. É a hora de colher os frutos da labuta direto do pé de dor-de-cabeça. Um passo após o outro é necessário para se locomover do ponto A ao ponto B. Dependo de quantos passos sejam dados, se atravessa uma rua, uma ponte, o Ceará ou o mundo. A vida de compositor é assim também. Sugamos o que ouvimos ao nosso redor e regorgitamos esses sons traduzindo-os em notas, uma após a outra. Uma peça após a outra. Uma estréia após a outra. Um belo dia, o reconhecimento. Ou não!

 

7) Quais são seus projetos futuros? Algum deles será no Brasil? 

 

O próximo, na lista, é um concerto para clarinete e orquestra para o clarinetista holandês André Kerver. A estréia será na Holanda, em 2013. Além disso, existem outras estréias que acontecerão no Brasil; uma delas é parte desse maravilhoso projeto do Paulo Martelli chamado Movimento Violão onde você [João Kouyoumdjian] fará a estréia brasileira de “Two pieces for guitar”, após estreiá-la em 2011, no Carnegie Hall, em Nova York. A outra estréia será de “Fantasia”, executada pela Orquestra Sinfônica Brasileira, no dia 06 de julho, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Outro projeto, a ser realizado ainda esse ano, é fruto de uma velha parceria com o trompetista Fernando Dissenha – primeiro trompete, da Osesp. Trata-se da gravação de um CD de música brasileira para quinteto de metais o qual inclui peças que compus recentemente para o seu grupo, formado por membros da Osesp.

 

8) O que você acha do Movimento Violão? 

 

Como diz a canção: “Certas canções que ouço/ Cabem tão dentro de mim/ Que perguntar carece/ Como não fui eu que fiz?”. Esse projeto, do Paulo Martelli, deve ter feito muita gente indagar a si mesmo, como na canção mencionada. Como tudo que dá certo, o Movimento Violão veio para ficar. Indo dos mais sutís pormenores, no que diz respeito a disseminação do repertório violonístico, da filosofia, do estudo, da pesquisa à execução do mesmo, o Movimento Violão está se tornando a “Mecca” do mundo violonístico. No passado, o professor Henrique Pinto me mantinha informado sobre os seus projetos no Brasil: concursos, recitais, palestras etc. Me impressionava vê-lo envolvido com tantas coisas ao mesmo tempo. Graças a ele, eu estava sempre a par do que estava acontecendo, em São Paulo. Me alegra ver que o Movimento Violão não só está continuando essa tradição de “tudo violão” como também expandindo e organizando a comunidade violonística mundial; indo do local ao internacional. Bravo!

 

REALIZAÇÃO

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