MARCO PEREIRA

Realizada e editada por João Kouyoumdjian 

A segunda entrevista da série Movimento Violão traz Marco Pereira, atualmente uma das maiores refências do violão Brasileiro. Aprenda um pouco mais sobre este eclético violonista, que fala em entrevista exclusiva ao Movimento Violão sobre versatilidade, seu trabalho com composição, arranjo, ensino, e suas parcerias com grandes nomes da MPB. Confira!

1) Além de consagrado violonista brasileiro, você também é um grande compositor, arranjador e didata do violão. Esta versatilidade pouco comum sempre foi parte do seu trabalho? Você poderia começar contando como foi sua formação musical desde criança até o perfil do seu trabalho nos dias atuais?  

Eu comecei o estudo do violão relativamente tarde... Tinha 14 anos quando ganhei o meu primeiro instrumento (que, aliás, era muito ruim...) e fiquei tocando "de ouvido" por uns anos até que, já com mais de 17 anos, entrei para um conservatório para aprender a teoria da música e fazer um estudo mais formal do instrumento. Entretanto, nesses anos iniciais do meu contato com o violão, já havia aprendido um bocado sobre acompanhamento na música popular (a bossa nova, com sua harmonia mais sofisticada, era o que estava em voga naquele tempo) e já estava tocando num conjunto de baile no qual cheguei a ser crooner. Era um tempo bom, onde não havia nenhum tipo de preconceito. Tudo era novidade e todas as novidades eram sempre bem-vindas. De certa forma, acho que mantive essa relação com a música e com o meu instrumento até os dias de hoje. Nunca respeitei fronteiras e estilos e sempre procurei aprender um pouco de tudo. E não que buscasse um 'entendimento teórico' da coisa, mas sim a experimentação prática de determinado estilo ou corrente musical. Esse interesse me transformou num músico eclético que pode tanto apreciar uma ópera de Verdi quanto manifestações rítmicas da cultura Hip-Hop, que pode se impressionar com uma sinfonia de Gustav Mahler ou com um samba cantado pelo João Gilberto... Enfim, acho que essa abertura para a diversidade abriu para mim as portas da versatilidade. Entretanto, é bom lembrar que, na maneira de se expressar musicalmente procurei sempre manter a coerência estilística que me define.

2) O foco maior da maioria dos violonistas que apresentam uma carreira de sucesso é performance. No entanto você também evidentemente tem uma preocupação bastante acentuada com ensino, através do trabalho didático em universidades brasileiras e do lançamento de uma série de publicações sobre harmonia, rítmo e técnica. Qual é o prazer que este tipo de trabalho lhe proporciona? Quais são as maiores recompensas?

O fato de haver começado tarde a carreira musical acabou gerando uma série de inseguranças profissionais. A opção pela formação acadêmica foi, a bem da verdade, apenas uma palheta a mais no meu leque de possibilidades de atuação profissional. Uma vez dentro da academia, eu não poderia deixar de tentar fazer o melhor possível e, nessa busca, percebi que poderia contribuir com alguns trabalhos de caráter didático. Quando me dava conta, já estava totalmente envolvido em algum projeto. Assim foi com o álbum de partituras do CD Valsas Brasileiras e do CD Cristal, com o livro+CD Ritmos Brasileiros e com os 3 volumes+3 CDs dos Cadernos de Harmonia. As recompensas não são muitas, posso lhe dizer. Pelo menos do ponto de vista financeiro... Afinal, nessa nossa era digital o que existe de mais simples e fácil é a reprodução de livros e CDs. Sendo assim, para cada livro e cada CD que a gente produz, são feitas 100, 500, 1000 cópias. Dessa forma, o prazer mesmo é o da realização de um trabalho e também da possibilidade de ajudar as novas gerações de músicos e violonistas com um material didático que a gente sonhou pra gente mesmo em nossa juventude e que nunca teve.

3) Você se lembra de algum momento especial no qual a música popular brasileira falou mais alto e o conquistou de vez? 

O que definiu meu jeito particular de fazer música foi o fato de ter tido, desde o começo, uma formação um tanto quanto 'caótica'... E também, porque nunca acreditei nessas fronteiras que separam a tal 'música clássica' de outras manifestações musicais. Para mim, sempre existiu a boa música e a música ruim. No meu entender, na peneira da música ruim pode tanto estar um sertanejo de mal gosto quanto uma obra de câmara do jovem Beethoven! Achava, ainda, que a carreira de um violonista clássico era por demasiado solitária. No meu tempo de estudante, o violão ainda era muito discriminado, tanto no meio acadêmico quando no ambiente orquestral ou entre os músicos de formação clássica. Além disso, percebi que pela mistura de alguns elementos que faziam parte da minha formação (música popular brasileira, violão clássico e jazz), poderia contribuir de maneira muito mais efetiva do que sendo apenas um intérprete de violão clássico. Nunca teve um 'momento da virada' para mim com relação à 'música popular'. A música popular brasileira tradicional foi aquilo que mais ouvi quando era criança e sempre fez parte do meu universo musical e afetivo.

4) Como compositor e arranjador experiente e consagrado, qual é a maior dificuldade de escrever música para violão? Como você procura explorar as propriedades técnico-acústicas do instrumento em suas composições e arranjos?  

Pode até parecer falsa modéstia mas a verdade é que ainda não me considero um verdadeiro compositor! Acho que preciso 'provar' algumas coisas para mim mesmo para que me sinta merecedor desse título. Infelizmente, no nosso país qualquer idiota que faz uma cançãozinha comercial é chamado de compositor... Acho que deveria haver, no mínimo, um pouco mais de respeito com esse 'título musical de nobreza'! Entretanto, ao longo dos anos, fui fazendo uma série de peças dedicadas ao violão e que, para minha alegria, tem agradado a violonistas de diversas correntes. Não tenho nenhum 'método' a seguir para fazer essas peças. Baseio-me sempre na minha intuição e procuro nunca correr atrás de uma idéia musical mas deixar que elas me persigam... A partir daí é só um trabalho de elaboração e desenvolvimento. Acho que é dessa forma que as coisas são feitas.

5) Dentre os nomes da MPB com os quais você já trabalhou incluem-se lendas vivas como Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Roberto Carlos, e alguns dos pais da nossa música como Tom Jobim e Nelson Gonçalves. Você poderia descrever o que mais aprendeu lado a lado com estes grandes artistas? 

Como você diz, foram e são grandes artistas! Cada qual com sua característica, seu potencial, mas todos muito especiais. Para mim é motivo de muito orgulho ter podido trabalhar e gravar ao lado de todos eles. Devo, entretanto, fazer aqui um agradecimento especial à pessoa que fez com que a maior parte desses encontros ocorresse que foi Almir Chediak. Com os seus 'Songbooks', Chediak nos deu a grande chance de não só gravar ao lado desses maravilhosos artistas mas também de expressar nossas próprias idéias músicais através de arranjos originais.

6) Seu trabalho hercúleo com o violão brasileiro o  levou aos palcos do mundo inteiro, fazendo de você também um certo diplomata do violão brasileiro. Mas o que você acha que nós, brasileiros, apesar da musicalidade latente nata, podemos aprender trabalhando com músicos estrangeiros e observando a relação de outros povos com a música?

Manter os olhos, ouvidos e a mente aberta para todo tipo de manifestação artística é o fundamento do aprendizado e do crescimento. Acho fundamental procurar sempre olhar além dos limites do nosso 'quintal' e, de certa forma, me preocupa um pouco a maneira como alguns músicos atuais, especialmente aqueles ligados ao Choro, se fecham para as expressões musicais que estão além do estilo que praticam.

7) Em meio a uma carreira nacional e international tão intensa, você vive inteiramente em função da sua música ou é possível balancear vida pessoal, como por exemplo manter família e um círculo de amigos sempre próximos? 

A música é o meu ofício mas a família é o meu norte. Tem que haver uma maneira de equilibrar os dois senão não tem como sobreviver...

8) Qual sua agenda no Brasil para 2012? Estará divulgando novos trabalhos em palcos brasileiros?

Pode até parecer que eu mantenha uma intensa agenda de concertos mas isso não é verdade! Eu costumo brincar, quando me perguntam se tenho viajado muito para dar concertos no Brasil e no exterior, dizendo: "eu viajo muito mais do que gostaria (adoro ficar em casa e cozinhar para a família...) e MUITO menos do que eu efetivamente preciso...” De qualquer forma, ainda em 2012 está nos planos fazer um CD para o selo “Borandá”, de São Paulo, e um CD de samba, com dois violões (e muita percussão...), em parceria com Rogério Caetano. Fiz uma excursão grande de 40 dias nos EUA no mês de janeiro e não tenho nada programado para o exterior a não ser a França em julho/agosto. Gravei, no mês passado, com minha querida amiga Luciana Souza no seu Brazilian Duos III uma música inédita dedicada a ela chamada Dona Lu (uma brincadeira com “Donna Lee”, do Miles Davis). Os próximos shows serão no Festival de Jazz de S. Luis, MA (23 e 24 de maio) e no Clube do Choro de Brasília (13, 14  e 15 de junho). Esses shows serão feitos em trio com meus amigos e maravilhosos músicos: Guto Wirti - contrabaixo -  e Bebê Kramer - acordeão.

 

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