JORGE CABALLERO

Realizada, editada e traduzida para português por João Kouyoumdjian 

Em entrevista exclusiva concedida ao Movimento Violão, um dos mais aclamados virtuoses do violão da atualidade - Jorge Caballero - fala sobre técnica, repertório, formação musical, Brasil, projetos futuros e muito mais. Confira!

1) Conforme publicado em um artigo de sua autoria para a revista americana Soundboard, você tem uma preocupação especial com projeção sonora. Inclusive neste artigo você afirmou: “projeção é o único requisito indispensável para um músico de palco”. Você pode explicar em detalhes porque essa preocupação é tão intensa em sua atividade como concertista e educador? 

Quando me pediram para escrever um artigo para a Soundboard, eu escolhi o tópico projeção porque eu considerava o mesmo pouco visitado e de maior valor artístico do que, por exemplo, relaxamento de mão direita. Projeção é de grande valor artístico porque, por necessidade, regula nossas escolhas musicais e técnicas e auxilia na nossa maturidade enquanto musicistas. Projeção vem da noçao de que nenhuma idéia pode ter impacto na nossa sociedade a não ser que outros possam ouví-la ou lê-la. Como músicos tem como medium o som viajando no espaço, projeção mede nossa habilidade para comunicar para um público.   

2) Você escolheu um repertório pouco usual quando você começou a interpretar os arranjos de Yamashita de obras orquestrais. Quais foram os desafios e recompensas de tal empreedimento? O que você adquiriu da experiência de tocar essas obras que você pode agora aplicar no repertório tradicional?

Uma resposta curta será longa neste caso. Sob o risco de subestimar as dificuldades dos arranjos de Yamashita, eu não acho que os desafios técnicos são muito diferentes de outras peças mais tradicionais do repertório. As variações de Ponce “La Folía”, por exemplo, consituem uma obra monumental que, se bem tocada, requer tanto trabalho quanto a “Sinfonia do Novo Mundo”, de Dvorák. Aliás, eu poderia argumentar que as variações de Ponce são mais difíceis, me baseando no fato da complexidade de sua linguagem. 

Um dos desafios de tocar os arranjos de Yamashita é fazer todos os procedimentos técnicos ficarem “invisíveis” para o público. À primeira vista, os arranjos de Yamashita podem ser facilmente interpretados erroneamente como exercício gratuito e desnecessário com o instrumento, um mero ato de circo.  Isto, é claro, é justificável: a radical variação de medium (violão solo ao invés de orquestra) desafia o julgamento tendencioso do ouvinte de um jeito significativo, fazendo por vezes impossível escutar os arranjos de Yamashita dentro de uma perspectiva musical. Nossos ouvidos então falham na escuta intuitiva, e ao invés disso focam em duas questões racionais. A primeira é o que foi ganho e o que foi perdido do “original”. A segunda, por vezes o caso de violonistas, são os tipos de técnicas empregadas. Qualquer uma das duas opções é ponto de partida não-musical para escuta.

Um segundo desafio é que os arranjos de Yamashita requerem um maior nível de coordenação em questões técnicas. Um exemplo seria o “Ballet of the Unhatched Chickens”. A última frase antes da recapitulação necessita de um “Mi” em registro grave e em harmônico, que é respondido por um harmônico artificial realizado na região XXXVI da primeira corda. Ao mesmo tempo, a melodia principal é tocada na 2a corda, e existe uma melodia subordinada que alterna entre a 3a, 4a e 5a corda. Com exceção do harmônico artificial agudo, todos os elementos acima não são incomuns na literatura violonista, mas é a justaposição de todos eles que cria complicações. 

As recompensas são relacionadas diretamente com os desafios, e quanto melhor as soluções que eu acho e continuo achando no estudo destas peças, melhor eu me torno como músico e artista. Como pessoa, eu acredito que é imperativo do ser humano o esforço por excelência. Eu sempre adorei os desafios que o violão erudito e seu repertório colocam em minha frente, e estas peças não são diferentes. 

3) Já é reconhecido o fato de que você, apesar de trazer a técnica e o repertório violonístico para um outro nível com técnicas extendidas e a performance de obras orquestrais no violão, tem uma grande admiração por violonistas do passado, sobretudo Andrés Segovia. Qual é a mais importante lição que você acha que os antigos mestres ainda ensinam hoje em dia? 

Independentemente da nossa geração, nós somos produto (e aqui eu estou usando a palavra no seu sentido matemático) de todas as grandes mentes que influenciaram nosso pensamento. Como violonistas, o grande legado que nós temos é aquele dos mestres do passado. Segovia é, para mim, o mais interessante violonista do passado para ser estudado. Suas escolhas de dedilhado, apesar de algumas vezes questionáveis com relação a mecânica da mão direita, são apesar de tudo funcionais, com consistência de cor (se executadas precisamente, o que não é fácil) e nunca sem uma intenção artística. Um fato por vezes negligenciado por violonistas aspirantes é que as escolhas de Segovia foram feitas considerando uma grande sala de concerto, o que não é geralmente nossa preocupação a não ser que nós estejamos tocando para 300 pessoas sem amplificação. Mesmo assim, eu acho que as escolhas de Segovia, aquelas contidas em suas edições bem como suas escolhas intangíveis de tempo e ritmo, são sempre efetivas independentemente do contexto da performance.

4) Muitos críticos iriam concordar que por trás de seu poder técnico extrordinário, existe um músico completo, no sentido de que você é capaz de balancear elementos composicionais (harmonia, rítmo, contraponto, etc) com expressividade (fraseado, nunces de sonoridade, dinâmica, etc).  Como você é prova de como este balanceamento pode resultar em performances incríveis, qual você diria que é a importância de investir tempo e energia em estudos teóricos e treinamento em contraponto, percepção, etc?  Você acha que “sabedoria musical” vem mais de um acúmulo de escolaridade ou da experiência prática do “mundo real”?

Eu começo respondendo que existe uma diferença entre ser instrumentista, músico, músico de palco e artista. Você pode ser um grande violonista e um músico horrível ao mesmo tempo. O inverso pode ser também verdade. Você também pode ser um grande músico mas no palco pode ser mediocre; um grande músico de palco mas um instrumentista ruim; um grande artista mas não um grande músico de palco, etc. As coisas diferentes que estudamos têm diferentes objetivos também. Desenvolver uma técnica no instrumento vai fazer de você um melhor instrumentista, mas não muito mais do que isso (embora eu admita que este é um assunto delicado). Estudar música e suas matérias (contraponto, harmonia, história, análise, percepção) deve fazer de você um melhor músico. Ser um bom músico de palco requer estudo de movimentos corporais. Eu acredito que seja impossível ser um artista a não ser que você já seja um, e nenhum estudo produzirá isso. Mas eu também acho que tudo que nós estudamos e aprendemos permite-nos ver as causas primeiras da criação artística mais facilmente, e são portanto úteis no nível de que nossas mentes podem estabelecer conexões entre as coisas que estudamos. 

5) Você foi um dos mais jovens artistas e o único violonista a vencer um dos mais prestigiados concursos de música clássica do mundo, o Naumburg Competition e provavelmente tem uma história de participação em muitos outros. Como um competidor sério, qual é o seu conselho geral para jovens violonistas sobre a preparação para concursos? E eles são a chave mais importante para uma carreira de sucesso?

Eu posso ou não ser a pessoa mais qualificada para responder isso. Em um período de 22 anos, eu participei de um total de 9 concursos. Eu fui desqualificado em um, venci três, fiquei em segundo quatro vezes, e em terceiro uma vez. Concursos não são de forma alguma a mais importante chave para uma carreira de sucesso, especialmente dado o número de concursos para atender a demanda de concertos. Ajuda organizadores de concertos a fazerem escolhas mais criteriosas quando vão planejar a temporada de concertos. Mas no final, é a ampla opinião pública a que constrói a carreira de um músico.

O conselho mais simples que eu posso dar a qualquer um sobre concursos é não pensar neles como objetivo ou fonte de validação de seu talento. Dada a subjetividade do critério de julgamento, que é tão variado quanto o número de concursos no mundo, uma pessoa não pode acreditar nela mesma como um bom violonista levando em conta concursos ganhos. O oposto também é verdade. A qualidade mais importante que devemos buscar é nosso próprio padrão de excelência. Se nosso padrão é alto o suficiente, todas as outras buscas artísticas se encaixam. Em sentido prático, todavia, é também necessária a participação em concursos para acessar o conjunto de habilidades requiridas para fazê-las bem, mas isso é um assunto bem mais extenso.

6) Como um aclamado concertista internacional e nativo do Peru, você provavelmente realizou várias tournês na América do Sul. Do que voce gosta  quando você toca no Brasil e América do Sul em geral? O que você acha atrativo, que faz com que músicos desejem voltar? 

Eu não toquei muito na América do Sul, mas eu toquei no Brasil 3 vezes nos últimos 2 anos, e tenho mais 2 concertos este ano, se tudo der certo. Eu particularmente gosto de tocar no Brasil ao invés dos outros países da América do Sul. A música popular brasileira apresenta um nível de rítmo e harmonia complexos que permitem brasileiros ouvirem música clássica ocidental de modo mais sensível que outras culturas, incluindo a minha. Adicione a isso a vibração de seu povo e você terá uma experiência maravilhosa como artista.  

7) Quais são seus projetos futuros? Você planeja lançamento de alguma nova gravação no futuro próximo? 

Os Quadros de uma Exposição constituem uma obra que está no momento sendo alternada em meus programas de concerto. Eu também estou trabalhando no arranjo de algumas peças de Albéniz, e acabei de terminar a Partita para Flauta BWV 1013, de Bach. Eu continuo a revisar meu arranjo da Sonata Op. 1 de Alban Berg, que é sempre meu projeto favorito. Além disso, eu estarei trabalhando com o Miró String Quartet este verão no Texas, e nós temos projetos adicionais que envolveriam encomenda de novas obras para quarteto de cordas e violão. Eu recentemente gravei uma peça chamada “Alba” do compositor Americano Mark N. Grant, que deve ser lançada pela Albany Records em maio deste ano. Eu também estou planejando publicar meus arranjos a partir deste ano. Existem sempre projetos de gravação flutuando por aí, mas eu não gosto muito de som gravado, então eu sempre atraso estes projetos. Música ao vivo é uma experiência tão profunda que gravações soam como caricaturas.

REALIZAÇÃO

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